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Aflora Mundão: uma rede de muitas mãos

O programa Aflora Mundão é o único programa de pós-medida de privação de liberdade para jovens que cumpriram medidas socioeducativas no Estado de São Paulo que considera o recorte de gênero. Não tem como a gente falar de um público sem contextualizar a realidade em que este está inserido.

O que a maioria das jovens escuta quando está lá dentro da privação de liberdade é que elas têm que fazer diferente aqui fora. Porém, quando elas passam da porta para fora, apesar de sentirem de volta a leveza da liberdade, em seus ombros são depositadas expectativas e responsabilidades de que trilhem caminhos diferentes daqueles que as levaram até ali. Mas, como, já que os caminhos indicados para a sua saída são os mesmos de onde vieram ou algum novo que não foi ela quem escolheu?

As respostas mais difíceis para elas na hora de fazer a inscrição para o programa são as que implicam refletir sobre os verbos sonhar e escolher. “Com o que você quer trabalhar?” A resposta mais comum: “Qualquer coisa. Não estou podendo escolher na minha condição”. “Quais são seus sonhos?” Normalmente a resposta começa com uma gaguejada de quem está pensando em algo que nunca foi perguntado. As respostas? “Conseguir um trabalho, ter uma casa, entrar na faculdade”. E a pergunta que me faço toda vez é: será que isso, que são DIREITOS, deveriam ser SONHOS?

No trabalho, por mais que não tenham a “ficha suja” (a lei garante o sigilo da imagem, identidade e do histórico de menores que cometeram atos infracionais, sendo assim, quando completam 18 anos não consta no sistema a medida socioeducativa cumprida anteriormente) , são barradas por conta das tatuagens, ou por ser transsexual, ou por não cumprir o estereótipo de mulher, por não terem experiência prévia, por morar longe demais. Qualquer um se cansaria de levar tantos “nãos” quanto essas jovens levam. Cada não é um tapa na cara de que elas não podem fazer novos caminhos. É a culpa pesando nos ombros por não conseguir fazer diferente. O caminho elas têm que trilhar, mas como fazer quando você está andando há horas pelo campo, abrindo a mata, com calor, e nenhuma casa no caminho abre as portas para te oferecer uma água? 

O programa Aflora Mundão é como um companheiro na caminhada dessas jovens, que respeita suas escolhas, entende que a caminhada é delas, mas não solta a mão. É a mão que ajuda a jovem a se levantar quando ela escorrega na lama, é a mão que permite o equilíbrio para atravessar as aterrorizantes pontes, é a mão que bate palma para prestigiar e, também, a mão que voa leve no ar para comemorar as conquistas. É a mão que ajuda a enxugar o suor de quem muito já andou e parece não estar encontrando o que busca. Mas o que essas jovens buscam mesmo? É encontrando o oásis no meio do campo que essas jovens podem se olhar no reflexo, sentar à sua beira e se conhecer de verdade. Esse é o pilar psicossocial do programa, que permite que a jovem possa se conhecer, para poder nomear o que está sentindo, se ver no espelho e ter uma opinião sobre si, poder pensar quais serão seus próximos passos e, também, o lugar para poder se lavar depois de chorar suas histórias doídas. Enquanto isso, a mão não solta, a mão está junto. No ritmo do passo da jovem, no caminho que ela está podendo escolher, podendo apontar para caminhos que sugere, mas sem nunca esquecer que ser mão não é ser pé. A jovem vai para onde ela quer, mas enquanto ela quiser uma mão na caminhada, a gente estará aqui.

Na semana passada, no grupo do WhatsApp do programa em que estão todas as pessoas atendidas, uma jovem decidiu abrir o jogo sobre uma situação muito difícil que estava acontecendo em sua vida. Em um ato de coragem e conforto, se permitiu compartilhar sobre si com aquelas pessoas. Várias nem se conhecem, mas abrir o grupo e ler cada resposta de cada pessoa do grupo, foi de encher os olhos. Diversas respostas, uma diferente da outra, mas todas acolhedoras. E aí que eu me engano quando falo que o programa Aflora Mundão é uma mão que não solta a jovem. O Aflora Mundão é uma REDE DE MÃOS que não se soltam. Existem problemas, sim. Continuam existindo dificuldades no caminho de cada uma das pessoas do programa, claro. Mas se tem uma coisa que elas não podem dizer é que não tem mão para segurar quando o terremoto chega. Isso é o Aflora Mundão e eu tenho muito orgulho de fazer parte disso. Espero que essa rede de mãos possa crescer cada vez mais com mais relações saudáveis, com mais autoconhecimento, com mais oportunidades de trabalho e educação e com muito respeito à história e aos sonhos das jovens.

Helena Kalantzopoulos Bretos, Coordenadora do Programa de pós-medida Aflora Mundão

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