Mundo Aflora

Sete anos aflorando

No 17º Fórum de Segurança Pública, onde participamos contando o nosso trabalho, passou um filme na minha cabeça sobre os sete anos de existência do Instituto Mundo Aflora. Estar no principal evento de segurança pública do Brasil, tendo a possibilidade de dar visibilidade para vidas afloradas e afirmar como a reintegração de meninas cis e pessoas trans, de 12 a 24 anos, que passaram por privação de liberdade, é possível, nos mostra como a nossa causa é necessária e a nossa voz pode ser ouvida por toda a sociedade.

Anos atrás, antes de surgir o Mundo Aflora, as vozes desses jovens ainda tinham suas vozes ouvidas por poucos. Foi como instrutora de Yoga dentro de uma das unidades da Fundação Casa, que comecei a entrar nesse mundo totalmente novo para mim. Era preciso desconstruir os preconceitos forjados por uma sociedade conservadora, que ignora a realidade de tantos brasis dentro de um só país.

Os adolescentes, de forma geral, querem transgredir, experimentar, arriscar, enfrentar. Eu já fui adolescente. Você também. Mas fui uma adolescente branca, de classe média e gozava de referências e de estruturas que me colocavam em privilégio. E, de certa forma, numa espécie de arrogância de saber que eu não teria o mesmo destino daquelas jovens. Romper esse estigma foi o primeiro tapa na cara a me fazer enxergar a existência de uma outra vida: a vida real de outras pessoas. Fora da minha bolha.

Mas até então, fazer algo ainda era distante. Como quebrar o ciclo de violência, pobreza e marginalização a que essas crianças são submetidas?

Sem oportunidade de um futuro, acabam dentro de um sistema de privação de liberdade, de onde saem ainda mais vulnerabilizadas, com seus vínculos fragilizados e sem perspectivas para realizarem seus sonhos. E essa roda gira de mãe para filha, de geração para geração. Como, então, transformar essa realidade?

Foi uma adolescente que cumpria medida socioeducativa dentro da Fundação Casa que plantou a semente que, anos mais tarde, viria a aflorar como Instituto Mundo Aflora. Ao sair da medida restritiva, ela pediu ajuda para o grupo de voluntários que fazia parte para pagar sua faculdade. Era o início do nosso trabalho germinando.

Existe, sim, meios possíveis de oferecer oportunidade para direcionar uma história para outro lugar, conhecimento, estudo e educação. Parece até simples, mas é um tema muito complexo. Não é somente dar educação, mas oferecer conhecimento e informação para que elas possam ser donas de suas escolhas e decidirem o caminho que querem buscar. Oportunidade não é abrir uma única porta possível, mas escancarar o mundo para que se viva com liberdade. E liberdade é de poder escolher.

Digo com toda a tranquilidade que o Mundo Aflora não é responsável por essas jovens terem um futuro diferente, mas fazemos a nossa parte para que elas conheçam os seus potenciais e possam saber quem são e para onde querem construir suas vidas. Não adiantam políticas públicas sem serem baseadas na escuta de suas ansiedades e sonhos.

Quando me dei conta disso, elas não eram mais meninas privadas de liberdade: elas tinham nomes, sonhos e muita capacidade de ser, de estar, de viver. Eu, então, não podia mais voltar atrás: estava na hora de aflorar!

Estar no Fórum de Segurança Pública mostrando os nossos resultados de integração – nenhuma jovem reincidiu, todas restabeleceram vínculos e puderam tocar suas vidas – foi a materialização da felicidade.

Ainda temos muito trabalho pela frente! Precisamos dar mais visibilidade à causa, trazer a sociedade para conhecer essas histórias e concretizar ações para que a caminhada continue.

O Estado e a sociedade precisam se responsabilizar por esta situação. Não é responsabilidade exclusiva das jovens estarem ali, é um problema histórico-social. É necessária uma coalizão para mudar essa realidade, quebrar preconceitos e romper esses ciclos viciosos e violentos. Quanto mais gente falar a respeito, mais a informação circula e mais força ganhamos.

O sonho do Mundo Aflora é não precisar existir. É um mundo onde todas as crianças e adolescentes tenham seus direitos garantidos e sejam prioridade absoluta, como está na constituição federal.

Para isso precisamos de você nessa jornada. Você vem com a gente?

Veja também

Quanto vale uma vida?

Mundo Aflora A violência estrutural é uma realidade complexa e insidiosa, infiltrando-se em todas as esferas da sociedade, muitas vezes

Direito de existir

Mundo Aflora Junho é o Mês do Orgulho LGBTQIAP+ (Lésbicas, Gays, Transsexuais, Queer, Intersexuais e Identidades não heterossexuais e não

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Quer nos apoiar ?

Clique no botão para ir para a página de doações
© 2021, Mundo Aflora. Todos os direitos reservados
CNPJ: 26.159.982/0001-52