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Setembro Amarelo. A importância de falar sobre o que se sente

A campanha Setembro Amarelo, que acontece agora durante o mês de setembro, é uma iniciativa do CVV (Centro de Valorização da Vida), CFM (Conselho Federal de Medicina) e ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) para ajudar a acabar com o tabu de se falar sobre suicídio.

A meta é ampliar e fortalecer as ações de promoção da saúde, prevenção e atenção integral, para a redução de tentativas e mortes por meio da construção do Plano Nacional de Prevenção do Suicídio.

A educação sobre o tema e o poder falar mais abertamente sobre o assunto são pontos cruciais para diminuição das taxas em todo mundo.

Suicídio é o ato de tirar a própria vida. Segundo dados da OMS de 2014 (último boletim feito pela Organização Mundial de Saúde), a cada 40 segundos uma pessoa se mata no mundo. Os números são alarmantes, 32 brasileiros morrem por dia, totalizando uma média de 11 mil pessoas que tiram a própria vida por ano no país.

Dados da Unicamp apontam que 17% dos brasileiros já pensaram em dar um fim à própria vida e, desses, 4,8% chegaram a montar um plano para isso.

Vários motivos podem levar alguém ao suicídio: pressões sociais, culpa, remorso, medo, humilhação e transtornos mentais. A psiquiatra Luciana Bagatella pontua que o suicídio pode estar relacionado à presença de doenças psiquiátricas. “Via de regra está. Podemos ter ideações suicidas no episódio depressivo grave, assim como em transtornos psicóticos ou em outros transtornos que façam o indivíduo ter uma desesperança profunda, uma sensação de que não há saída. Isso pode acontecer com pacientes ansiosos graves ou com pacientes portadores de transtornos de personalidade do tipo borderline e histriônico, por exemplo”.

A psiquiatra ressalta também o momento em que vivemos. “A pandemia trouxe um claro aumento de casos de depressão, de ansiedade e outros transtornos psiquiátricos. Além disso, sabemos do agravamento de situações sociais relacionadas à pobreza, bem como da violência doméstica. Acredito que os números que teremos adiante confirmarão a hipótese de aumento de casos de suicídio durante esse período”.

O que preocupa é que enquanto está estável no mundo, no Brasil só cresce e o maior aumento de suicídios é registrado entre jovens de 15 a 25 anos.

Luciana explica que o suicídio entre jovens pode estar relacionado ao fato de enxergarem a vida adulta como algo muito complicado sem que exista algo que compense toda essa complicação. “Zygmunt Bauman, o grande sociólogo polonês, descreveu o que veio chamar de modernidade líquida, pra nos dar um pouco a noção de como as relações atuais são efêmeras, fluidas. Ele traz com esse conceito a ideia de que estamos num momento em que nossa necessidade de segurança não está sendo satisfeita, que estamos mais desamparados. Esse estado gera muita angustia, em todos. Imagina isso na psique de um jovem?”, complementa a psiquiatra.

Agora imagine isso na cabeça das meninas que passam ou já passaram por medidas socioeducativas?

O Instituto Mundo Aflora nasceu para dar suporte às meninas que se encontram em cumprimento de medidas socioeducativas. A fundadora Renata Mendes conta que, convivendo com meninas nessa situação, percebeu que elas tinham muitos talentos e poucas oportunidades. “Quando comecei a conversar e entender melhor a realidade de onde vinham, além da falta de oportunidades, vi que existia também o fator de viverem em um ambiente disfuncional que causavam traumas em diversas camadas em suas vidas, bloqueando qualquer tipo de sonho ou realidade para além do que viviam.”

Perceber alguns comportamentos depressivos podem nos deixar em alerta, como isolamento social, tristeza, irritabilidade, inapetência ou insônia. E também os comportamentos de despedida, como cartas, visitas ou pedidos estranhos. “Quando estivermos diante desse quadro, precisamos prontamente oferecer uma escuta livre e protegida, oferecer tratamento adequado caso haja algum quadro psiquiátrico associado, além de tentar dar ao adolescente perspectivas favoráveis (realistas, mas favoráveis) de um futuro melhor. Muitas vezes apenas ouvir pode ser suficiente para dar suporte e encorajamento a esses jovens” esclarece a psiquiatra Luciana Bagatella.

Existem alguns fatores de risco que podem estar relacionados ao comportamento suicida, como histórico familiar, problemas de saúde mental nos pais, questões de orientação sexual e identidade de gênero e história de abuso sexual.

O Mundo Aflora oferece um programa chamado “De Olho nos Talentos” onde oferecem atividades para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais dentro dos centros de privação de liberdade. “Criamos um espaço seguro para que elas possam se conectar consigo e expressar suas dores, traumas, experiências e conhecimentos. Quando elas estão cumprindo a medida, longe de seus familiares, com pouca autonomia, isso tem um impacto muito grande na saúde mental delas. Muitas delas chegam com problemas de dicção, ansiedade, depressão ou algum tipo de transtorno devido aos traumas vivenciados”, explica a fundadora.

As meninas recebem atendimento psicossocial dentro das medidas e contam com as atividades do Mundo Aflora para resgatarem sua autoestima, sonhos e responsabilização sobre suas próprias escolhas. “Quando as meninas me procuram dividindo alguma angustia, medo ou desafio que estão enfrentando, a primeira coisa que pergunto é se elas estão seguras. E depois eu acolho escutando empaticamente, sem nenhum tipo de julgamento, avaliação ou crítica. Isso normalmente reafirma o nosso vínculo e a sensação que não estão sozinhas nesse mundão”, conta Renata.

Luciana ressalta que a integração dessas jovens precisa passar por um cuidado com todo o entorno de suas vidas. “Precisamos garantir que suas famílias tenham mais recursos, que eles tenham acesso a educação, a saúde, a uma perspectiva positiva de futuro. Uma família bem estruturada, com oportunidades, poderá receber esses jovens de maneira mais humana e saudável”.

A área de mentoria ainda é feita somente pela equipe do Instituto Mundo Aflora e estamos desenvolvendo a melhor forma de apoiar a saúde mental das meninas com mentores parceiros. Mas é só um começo, é possível fazer muito mais.

Você pode conversar com um voluntário do CVV ligando para 188 de todo o território nacional ou pelo chat no cvv.org.br, 24 horas todos os dias de forma gratuita. Você é atendido por um voluntário, com respeito, anonimato, que guardará estrito sigilo sobre tudo que for dito e de forma gratuita. Nossos voluntários são treinados para conversar com todas as pessoas que procuram ajuda e apoio emocional.

Você também pode ajudar a transformar a vida de muitas meninas.

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