Marília Taufic

A comunicação feminista pode salvar vidas

Jornalistas amam dados, números que ajudam a mostrar o tamanho de um problema ou da solução. O índice de analfabetismo de um país, números de mortos em uma guerra, a quantidade de pessoas infectadas por uma nova doença. Acontece que, dependendo do local sobre o qual um jornalista está reportando um fato, como em países subdesenvolvidos, os números negativos são apresentados com tamanha frequência, que corre o risco de serem banalizados. 

Como jornalista, eu acredito que minha função social é usar a informação como ferramenta de transformação social. Cidadãos bem informados são provocados a realizar mudanças no país, em comunidades ou conseguem, simplesmente, compreender que persistir não é o único caminho possível em suas histórias pessoais. Por isso, dados não podem ser ignorados, mas é essencial também apresentar relatos de vida para entender que esses números representam pessoas de carne e osso. 

Hoje, em pleno ano 2020, eu tento contar histórias de brasileiras que vivem no país onde o espaço mais perigoso para elas é a sua própria casa e a sua maior ameaça é o parceiro, ou o pai, ou seu irmão, até mesmo o filho. Como muitas pessoas já ouviram, ou leram, que o Brasil é o 5 país no mundo que mais mata mulheres, para não banalizar, vou contar a história da Stephanie. 

A Stephanie é filha da Andrea, uma paulistana forte, considerada o alicerce da família. Daquelas mulheres que organiza todos os encontros, as festas familiares, aquela pessoa com quem todos sempre podem contar. E foi a Andrea quem acolheu a irmã, tia da Stephanie, que sofria de violência por parte do ex-marido. Após muitas ameaças, ele foi ao encontro da ex-mulher. Quando elas saiam de casa, lançou o carro para atropelá-las. Felizmente a tia conseguiu escapar, mas a mãe da Stephanie foi atropelada e morreu. O caso foi julgado e, com o importante depoimento da Stephanie, o assassino teve uma pena alta. Porém, como ela mesma diz: “a indignação e a saudade nunca passam.”  

A Stephanie é a representação perfeita de um propósito: mais do que trabalhar pela existência de uma sociedade onde as mulheres não sejam mortas, a comunicação feminista tem o objetivo de buscar a construção de uma sociedade livre, justa e igualitária, porque só com igualdade, justiça e liberdade, esses assassinatos deixarão de acontecer. 

Eu conheci a Stephanie trabalhando como jornalista no Ministério Público de São Paulo. Assim como ela, ouvi de tantas outras – que fazem engrossar os números de violência contra a mulher – suas histórias de vida. Relatos que me fizeram entender a desigualdade de gênero de uma forma que eu nunca havia refletido antes. Um despertar que me levou a buscar soluções e a entender que o feminismo é o caminho. 

Estando numa instituição que tem o poder de influenciar a vida de tantas pessoas, foi no Ministério Público, ao lado de promotoras e promotores de Justiça, que foi possível co-criar e dar a luz a trabalhos tão relevantes para chamar a atenção da sociedade e empoderar as mulheres de informação. Foi assim com a campanha de mobilização para aprovação da Lei do Feminicídio, que em seguida foi sancionada em 2015; ou com o desenvolvimento de uma iniciativa de combate ao assédio sexual dentro da instituição, iniciada em 2018; ou com a recente criação da chat bot Maia, em 2020, desenvolvida em parceria com a Microsoft, que tem como função conversar com meninas de forma acolhedora, sobre relacionamentos abusivos. 

Dentre tantos projetos, em 2019 nasceu o PenhaS, um aplicativo que criei e co-desenvolvi no Instituto Azmina, com a união de tantas mulheres brilhantes, e que reflete nosso trabalho constante na conscientização coletiva e a união entre as mulheres como forma de enfrentar a violência e libertação dos relacionamentos abusivos. 

O principal objetivo do PenhaS é o empoderamento da mulher por meio do conhecimento e apoio em rede, já que o app oferece, numa única plataforma, compartilhamento de informações e diálogo em ambiente seguro. Se informar sobre as delegacias da mulher, conversar de maneira anônima sobre as violências sofridas, produzir provas contra o agressor ou traçar sua rota até pontos de acolhimento, pedir ajuda a uma amiga e tantas outras ações estão reunidas em uma só ambiente. 

Acima de tudo, o PenhaS pretende ser uma plataforma de transformação estrutural. Acreditamos que conectar e informar é extremamente necessário para ajudar a promover a libertação das mulheres que estão subordinadas a uma situação de dependência, de violência e de opressão. Mas, principalmente, é instigante pois leva a maioria a refletir sobre a diferente valoração de homens e mulheres em uma sociedade. 

É assustador pensar que muitas meninas já nascem com esse destino: se elas não correspondem aos seus papéis sociais – ser a melhor esposa, ser mãe, ser uma garota recatada – elas “merecem” ser agredidas, e até mesmo, mortas. 

Por isso a importância de informar e de ter uma educação que reflita sobre a desigualdade de gênero, porque o grande obstáculo é cultural. Falar de violência contra a mulher tem que ser menos uma pauta do noticiário de polícia e mais uma pauta do noticiário de educação. 

Educação que analisa a questão de gênero apenas como um pensamento que busca refletir a diferença de valor de um sexo em relação ao outro, por conta de normas que não são naturais, elas são criadas pela sociedade. Normas de gênero são regras que enquadram o que é certo e o que é errado para homens e para mulheres. Então, quando dizemos que meninas devem vestir rosa e meninos azul, criamos aí uma norma de gênero. Quando dizemos que meninos não choram, criamos mais uma norma de gênero. Quando dizemos que meninas devem ser belas, recatadas e do lar, outra norma. 

Por isso, tudo o que é feito diferente disso, é transgressor. E é claro que a sociedade também acaba criando uma escala de transgressão: se vestir uma cor diferente da que foi destinada a você é um problema, imagine fazer uma mudança de sexo, como é o caso das pessoas trans? É praticamente um destino de morte.

O que fazemos, com a comunicação feminista, como na AzMina, e no PenhaS, é mostrar uma perspectiva diferente: e se todos nós, como sociedade, homens e mulheres pudermos ser o que quisermos, na medida em que este querer, não oprima e não viole o direito do outro? Isso é liberdade. 

De acordo com o Relatório de Desigualdade Global de Gênero de 2016 do Fórum Econômico Mundial, o caminho ainda é longo para colocar um fim a essa injustiça. Levando em consideração quesitos como educação, saúde e política, o Brasil levará cerca de 104 anos para igualar as condições de gênero.

Por isso, continuaremos trazendo dados e histórias e pensando em ações que possam acelerar esse processo, sem nunca banalizar. O nosso maior objetivo é que o PenhaS não precise um dia mais existir desta forma, como uma salvaguarda para vítimas, mas como um projeto que fala sobre uma sociedade igualitária e o quanto isso nos deixa mais fortes.

Marília Taufic é coordenadora de comunicação da Escola Superior do Ministério Público de São Paulo e criadora do PenhaS, aplicativo de enfrentamento à violência contra a mulher do Instituto AzMina

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