
Ser mulher na socioeducação é enfrentar o sistema duas vezes
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Em um mundo onde todos se mobilizam em solidariedade às crianças vítimas de guerras, é necessário refletir sobre as realidades que cercam nossas crianças no Brasil. O abismo social que enfrentamos é, de certa forma, uma guerra silenciosa, onde as armas são a desigualdade, a fome e a falta de oportunidades.
Dados alarmantes divulgados pela UNICEF em 2023 do estudo “As Múltiplas Dimensões da Pobreza na Infância e na Adolescência no Brasil” revelam que pelo menos 32 milhões de meninas e meninos (63% do total das crianças do Brasil) vivem na pobreza em suas múltiplas dimensões: renda, educação, trabalho infantil, moradia, água, saneamento e informação. Este estudo destaca que a pobreza vai além da renda, incluindo a privação de direitos fundamentais que impactam diretamente a vida dessas crianças.
Infelizmente, muitas dessas crianças vivem à margem da sociedade, invisíveis para a maioria. Elas não fazem parte das estatísticas que comovem e, muitas vezes, só se tornam visíveis quando cometem atos infracionais. Nesse momento, a sociedade parece acordada, mas o que muitos não percebem é que essas crianças já lutavam uma batalha diária, marcada pela privação de direitos e pela luta pela sobrevivência.
Entre as principais privações que impactam a infância e a adolescência estão a falta de acesso ao saneamento básico, que afeta 21,2 milhões de crianças, e a privação de renda, que atinge 20,6 milhões. Além disso, a falta de moradia adequada, o acesso à água e o trabalho infantil são desafios constantes. As crianças em situação de vulnerabilidade são as mais afetadas por essas privações, e as desigualdades se aprofundam entre grupos raciais: em 2019, 72,5% das crianças negras e indígenas estavam na pobreza multidimensional, em comparação com 49,2% das crianças brancas e amarelas.
Em 2021, o percentual de crianças e adolescentes que vivem em famílias com renda abaixo da linha de pobreza extrema, como per capita abaixo de R$ 667 mensais, era de 16,1%. Na educação, a taxa de analfabetismo dobrou de 2020 para 2022, passando de 1,9% para 3,8%, refletindo a gravidade da situação.
É hora de considerar que, assim como as crianças em zonas de conflito, as crianças brasileiras também precisam urgentemente da nossa atenção e solidariedade. Como falamos no início do texto, é preciso olhar para elas desde sempre para protegê-las e para que se sintam seguras, e não apenas quando cometem um ato infracional. A sociedade deve se comprometer a garantir que todos os direitos sejam respeitados, para que cada criança possa ter uma chance de um futuro digno com possibilidade de escolha.
É fundamental que as privações que essas crianças enfrentam sejam abordadas de forma ampla, colocando a infância e a adolescência no centro das políticas públicas.
Acreditamos na importância de dar visibilidade a essas realidades e trabalhar para mudar esse cenário, lutando pela garantia de direitos e pela possibilidade de escolhas. Mas, diante desse panorama, a pergunta que fica é: até quando vamos permitir que nossas crianças lutem sozinhas nessa guerra invisível, antes de agirmos com a urgência que elas merecem?

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