Helena Kalantzopoulos Bretos

Olhar e ver: o poder do encontro

Durante uma oficina do Instituto Mundo Aflora, um voluntário usou o nome de Josi* em um dos exemplos que ele deu. Josi deu um grito, ilustrado por seus olhos arregalados e boca aberta, e olhando para a menina ao seu lado, questionou: “Como ele sabe meu nome?”. A menina então respondeu que ela já havia se apresentado à ele no começo da atividade, quando havia feito uma pergunta.

Josi, não satisfeita, então questionou para a mesma menina: “Mas como ele lembra meu
nome?”. A colega logo respondeu: “Boa memória, né?”. Josi concordou, ainda com cara de espanto.

Sua cara de espanto permaneceu por mais um bom tempo. Assim como meu olhar para Josi. Por mais que ela já estivesse calada e prestava atenção à atividade, dentro de mim ainda reverberava aquela reação, como se a mesma cena se repetisse mais algumas vezes. Ainda tentava entender o que se passava comigo, que fiquei tão presa àquela situação, à reação dela, à Josi.

Por que ela havia tido tamanha surpresa naquela atitude do voluntário , que nem percebeu sua indignação e seguiu sua vida sem provavelmente ter reparado no impacto daquele exemplo para Josi?

O que havia de tão chocante nisso tudo? A cara de espanto de Josi volta em minha mente.
Qual a surpresa em ser notada e lembrada? Será que não gostava de se destacar? Será que nunca tinha sido destacada? O espanto era em forma de aprovação ou reprovação?

Ficam tantas questões sem respostas, que talvez só a própria Josi possa responder. Por outro lado, existem coisas que não precisam ser ditas. A surpresa de Josi por ter sido notada é uma delas.

Quantas vezes Josi não foi rejeitada ou invisibilizada por ser quem ela é, morar onde mora, falar com gírias, ter várias tatuagens, viver à margem?

Provavelmente uma quantidade de vezes muito maior do que foi notada de forma natural diferente do
preconceito ou estigma. Aquele voluntário nem sabe, mas acredito que sua atitude ainda ecoa dentro da Josi como um bom momento em que foi notada e reconhecida de forma tão espontânea sem sofrer uma punição por ser quem é.

Talvez mais do que o conteúdo daquela atividade, o que reverbera em mim e provavelmente em Josi, é justamente o que não precisou ser dito, mas pôde ser sentido – o encontro de duas pessoas, podendo oferecer uma troca que não tem preço: o reconhecimento e validação do outro ser quem ele é. Simples e complexo ao mesmo tempo. Bonito e duro na mesma intensidade. Óbvio e inusitado simultaneamente.

*Josi é um nome fictício para preservar a identidade da menina.

Helena Kalantzopoulos Bretos, coordenadora do Programa Aflora Mundão.

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